Segundo o jornal O Estado de São Paulo, em 2013, o número de divórcios registrados no Brasil era de 45 por dia. Você já imaginou o significado disto? Até 2014 foi constatada uma redução na duração média dos casamentos de 19 para 15 anos. Em 85% dos casos a guarda estava sob responsabilidade das mulheres.

E aqui se observa algo importante, a ausência da figura paterna, masculina dentro de casa. E sem dúvida, isto gera inúmeras dificuldades para a formação educacional e psicológica de uma criança. O brasil é um país onde o número de divórcios cresce absurdamente. Uma notícia divulgada pelo próprio governo há dois anos atrás indicava:

O Brasil registrou 341,1 mil divórcios em 2014, ante 130,5 mil registros em 2004. É um salto de 161,4% em dez anos. O dado está presente na pesquisa Estatísticas do Registro Civil 2014 […]

O cenário com o qual nos deparamos no Brasil é o de muitas famílias fragmentadas. Como pastor de uma igreja na periferia pude perceber esta realidade de perto. A maioria de famílias de nossa comunidade não possuía uma estrutura tradicional (Pai, mãe e filhos de mesmo sangue). Inúmeros casos de mães solteiras, pais alheios ao crescimento dos filhos, abandono e irmãos de casamentos diferentes.

Neste cenário tão complexo para a família, é triste perceber que até mesmo para as crianças a separação já não tem sido tratada como uma novidade (embora isso não signifique que não seja um processo doloroso), pois, ao chegar na sala de aula a criança se depara com muitos colegas de turma que também são filhos de pais separados e vivem a rotina de viver sob a tutela compartilhada de seus pais.

Jovens casais lutam por um casamento que ultrapasse a marca inicial das bodas de algodão-doce (3 anos). Eu não sabia que existia esse tipo de nomenclatura até os casais apaixonados em meu facebook divulgarem a cada ano a atualização de uma nova boda. E então de repente. Fim. Aquela paixão dos primeiros anos de casamento se acaba. Enaltecemos hoje em dia os casais que ultrapassam a marca dos 20 anos de casamento. Imaginamos os 50 anos de casamento como uma impossibilidade. Aplaudimos os irmãos da igreja que chegaram tão longe nos seus relacionamentos. Assim são os relacionamentos em uma “modernidade líquida”. Somos a era dos relacionamentos frágeis e consequentemente dos casamentos frágeis. Zygmunt Bauman, um sociólogo moderno escreveu sobre isso:

[…] a definição romântica do amor como “até que a morte nos separe” está decididamente fora de moda, tendo deixado para trás seu tempo de vida útil em função da radical alteração das estruturas de parentesco às quais costumava servir e de onde extraia seu vigor e sua valorização. (BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. Editora Zahar. pg. 10)

Todos os dias enquanto me dirijo ao trabalho, faço uma leitura frequente da Bíblia pelo celular, e hoje, após ter um final de semana visitando meus pais, inevitavelmente fiz algumas reflexões sobre a família baseados no relato do Dilúvio nos capítulos de 6-9 do livro do Gênesis.

Deus se importa com a família

A família não se trata de algo não pensado por Deus. Na verdade, é óbvio que para a mente onisciente de Deus nada acontece por acaso. Todos os seus atos são planejados e relacionam-se diretamente com o Seu eterno propósito (Romanos 8.28,29). A família do mesmo modo:

Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea. (Gênesis 2.18)

A formação do homem e da mulher é uma formação divinamente intencional. Deus estabelece a família e ordena a sua multiplicação. Ele ordena isso a Adão e Eva (Gênesis 1 .27.28) e ordena novamente a Noé (Gênesis 9.1). O propósito salvífico de Deus foi estabelecido a partir de uma família (Gênesis 12.3). A família não é uma ocorrência casual de um processo naturalista de reprodução, mas uma obra instituída e planejada por Deus para a Sua Glória.

A história de Noé apresenta uma bela lição sobre o plano de Deus da preservação da família. Não foi apenas Noé que foi salvo por Deus na Arca. Não foi apenas a esposa de Noé. Não foram apenas os seus filhos. Não foram apenas os animais machos e não foram apenas as fêmeas. Deus preservou o núcleo familiar. Ele preservou a família. Deus manifestou sua justiça no mundo, mas preservou a família, um núcleo que pudesse novamente se multiplicar e repovoar a terra.

Enquanto estávamos distante de Deus, nossas famílias eram alvo de toda essa estrutura da sociedade moderna. Essa liquidez do amor poderia afetar nossa vida e nossas relações nos distanciando do planejado por Deus para nossas famílias. Mas agora, através do Evangelho de Jesus Cristo, fomos convergidos de volta ao propósito de Deus. Em Cristo somos pais novos, mães novas, filhos novos, irmãos novos. Temos a oportunidade de construir uma família segundo aquilo que Deus planejou desde a fundação do mundo. Por meio dos ensinamentos de Jesus, o Evangelho traz uma nova visão sobre nossa família, baseada no amor, no perdão, na graça, na salvação e libertação, na esperança.

Tenha uma nova ótica sobre sua família

Este é o principal motivo pelo qual somos desafiados pelo Evangelho a ter um novo olhar sobre nossa família. Não podemos mais construir uma família com o conceito de uma modernidade onde os relacionamentos são frágeis. Somos desafiados pelo Evangelho a constituir uma família sobre a Rocha que é Cristo.

Jesus está presente na sua família? A pergunta parece óbvia para um site cristão como esse. Mas não. Há muitas famílias cristãs em que Jesus não está realmente presente. Há um texto bíblico que frequentemente aplico em minhas orações sobre minha família:

E desceu a chuva, correram as torrentes, sopraram os ventos, e bateram com ímpeto contra aquela casa; contudo não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. (Mateus 7.25)

Quando nossa família está firmada sobre valores eternos de Jesus, temos a certeza que ela permanecerá e não ruirá diante das crises. Não importa a natureza dessas crises: moral, espiritual, psicológica, conceitual ou financeira. Aonde Jesus está presente, os valores e os princípios trazem firmeza, esperança, paz e autêntica felicidade.

Ame a sua família. Aproveite cada momento junto com ela. Não importa como ela seja. Talvez sua família seja um pouco diferente, mas você sabe que é sua família. Sente-se na mesa, comam juntos. Não precisamos de dinheiro pra experimentarmos o tempo um com o outro. Vocês podem descobrir bons momentos dentro de casa sem precisar gastar dinheiro.

Não desista da sua família. Não abandone seus filhos, ame sua esposa, ame seu marido. Ame até o fim, ame o máximo que puder. Aprenda a superar as dificuldades nos relacionamentos, as brigas, as discussões. As vezes o melhor não é tentar chegar em um acordo, mas deixar o assunto pra outro momento. Aprenda a compreender que cada um tem seu jeito e vão ter que aprender a respeitar isso.

Acredite na sua família. As coisas vão melhorar, seus filhos vão se acertar, seu casamento vai dar certo. Acredite. Insista o máximo que puder. Não desista!

A sua família é um projeto de Deus. E por isso vale a pena lutar pela sua preservação. Foi o que Deus fez, é o que nós também devemos fazer.